Monday, May 14, 2007

COMPUTADORES PODEM MUDAR A EDUCAÇÃO?

O artigo abaixo foi publicado no Gazeta Mercantil, de hoje, dia 14 de maio, na página 3. Trata do potencial que o XO pode ter para melhorar a Educação.


COMPUTADORES PODEM MUDAR A EDUCAÇÃO?
Sergio Amadeu da Silveira

Há algum tempo fiquei sabendo que uma importante escola da classe média paulistana havia proibido seus alunos de entregarem trabalhos digitados no computador. Os adolescentes tinham que escrever tudo a mão. Com isso, a escola queria evitar o “recorta e cola”, o plágio nos trabalhos escolares. Por mais nobre que tenha sido a intenção, a medida adotada além de não resolver o problema da cópia, agora dificulta a ação dos professores interessados em descobrir os trechos usados sem a devida citação das fontes.

Como professor universitário, leio muitos trabalhos e acabo usando o google e o yahoo para checar na rede os trechos que considero plagiados. Os buscadores acabam infalivelmente me mostrando a fonte da cópia. O mesmo “recorte e cola” usado pelo aluno pode ser usado pelo professor. Este recurso da busca foi retirado dos educadores daquela escola paulistana, exceto se eles ficarem digitando os trechos dos trabalhos escritos a mão. O mais interessante é que a direção daquela escola desconsiderou o fato dos alunos copiarem a mão os conteúdos presentes na web, como se copia uma enciclopédia impressa.

Citei este fato para mostrar que para muitos educadores, a rede mundial de computadores é vista como um empecilho ao processo educativo. Ao invés de usarem os enormes recursos da Internet para ampliar as possibilidade de aprendizado, para acelerar o desenvolvimento cognitivo, para demonstrar aos jovens como se encontra, organiza e se dissemina a informação, alguns educadores preferem ver na rede a raiz da falta de ética. Será que estes educadores esqueceram que a famosa “cola” não nasceu na era da informação? Será que nunca tiveram um professor no primeiro grau que orientava os alunos a fazer trabalhos copiando verbetes de enciclopédia? Antes da Internet, tudo isto era entendido como fato normal.

Todos sabem que o nosso sistema educacional está muito ruim. É preciso reconfigurá-lo. A rede informacional pode auxiliar muito na realização das mudanças necessárias. Duas delas são urgentes. A primeira é superar o ensino e aprendizado baseado na hierarquia, no autoritarismo e no argumento da autoridade. A segunda é entender que, na sociedade da informação, a ética é parte integrante da educação, em todos os níveis.

Estas duas mudanças podem ter na rede informacional os elementos de apoio e os instrumentos de implementação. Os computadores não mudam a educação, mas podem ser ferramentas estratégicas. O processo de mudança deve começar pela mera constatação de que nossa mente pensa por associação, como escreveu Vannevar Bush, em 1945. As redes permitem aprender mais rapidamente exatamente por permitir as múltiplas associações e as recombinações de conteúdo. Tal como no cérebro humano, a rede permite interatividade entre pontos distintos, permite compor conteúdos novos a partir da fusão, da remixagem e das práticas recombinates. Para isso, os educadores tem que superar o mito de que o saber e o conhecimento estão prontos e que eles são os seus porta-vozes. É preciso incentivar o ensino exploração, onde o professor é também um explorador, apenas mais experiente, de novos territórios.

Copiar e recopiar nunca foi um problema para a educação. Aprendemos nossa língua imitando, copiando. Aprendemos a usar o alfabeto copiando várias vezes até adquirirmos a autonomia recombinante. Nesse sentido, não é a cópia e a remixagem que tanto preocupou os educadores daquela escola paulistana que deve ser combatida. O que falta naquela escola e em tantas outras é o debate sobre a ética. Uma ação sobre ética que supere o simples ditar das regras e promoção de ameaças. Tenho falado aos meus alunos que não vejo problema se eles quiserem copiar todo o trabalho escolar de vários sites e remontá-lo em um texto coerente. O problema aparecerá se eles quiserem omitir as fontes e deixar de colocar aspas em declarações que não foram escritas por eles, se eles tentarem mentir e enganar. Muitos alunos acabam percebendo que o trabalho de recombinar pedaços de vários sites de modo correto e coerente, exige leitura, atenção e muitas vezes é mais difícil do que escrever um texto com somente aquilo que seu cérebro já havia copiado e recombinado. A ética é necessária para o avanço da ciência e para a história. Esclarecer quem foi a fonte de um texto copiado é fundamental para manter a verdade histórica e para permitir que outros usem de outra forma aquele mesmo texto. A ciência avança acumulando conhecimento, copiando e recombinando o conhecimentos anteriormente acumulado.

Os computadores, podem ajudar a acelerar estas mudanças de um ensino vertical-autoritário e desestimulante para um processo de ensino e aprendizagem baseado nas redes, na liberdade recombinante e de exploração de culturas e conteúdos. Por isso, considero que devemos apoiar decisivamente a introdução nas escolas do OLPC XO , também conhecido como laptop de 100 dólares. Como deixa claro a professora Léa Fagundes, coordenadora do Laboratório de Estudos Cognitivos (LEC), da UFRGS, “o XO é a máquina das crianças, porque são elas que programam. E o XO cria um ambiente natural de expressão da comunicação. Tem a câmera fotográfica, os fones, as crianças se comunicam conversando na tela. Conectam-se pela internet wireless. Além disso, tem uma coisa maravilhosa, que é a rede Mesh. Quando eu uso a internet nos PCs tradicionais, a comunicação e a interação ficam forçadas.”

Léa Fagundes, educadora experiente e premiada no mundo todo, sabe que “se o governo brasileiro comprar 1 milhão de equipamentos, teremos que treinar 40 mil professores da rede pública em menos de um ano”. Este é o processo necessário para revolucionar a educação. Sem o XO nas mãos das crianças a inércia continuará a tomar conta das nossas escolas. Léa também alerta-nos que “o XO não é um PC. Eles inventaram um novo computador, feito só para educação. É a máquina das crianças.” Estas frases da Léa foram retiradas da entrevista que deu à Verônica Couto da Revista A Rede.

Por fim, é importante dizer a razão porque alguns grupos somente interessados em vender computadores, aliados ao monopólio mundial de software para desktop, estão tentando evitar que o governo utilize o XO nas escolas. Para isto até inventaram que querem um hardware completamente nacional. Só esqueceram que o processador, o HD e demais componentes importantes, infelizmente, não são fabricados no Brasil. Engraçado estes senhores não quererem o mesmo para os softwares. Os softwares podem ser do monopólio norte-americano. Estranhos argumentos, mas coerentes. Um quer vender o hardware que monta no país e outro quer continuar a ser monopólio de software básico. Nós educadores queremos outra coisa: autonomia tecnológica e um ensino-aprendizagem voltado para a liberdade, para a criatividade e para despertar nos jovens a permanente vontade de conhecer. Autonomia tecnológica se faz com software livre e com arquitetura aberta de hardware.

2 comments:

Fisica no CP2 Engenho Novo said...

Olá Prof. Sergi Amadeu!


É por aí mesmo... reiventar a escola... deixar de ser um espaço de ensino para ser um espaço de aprendizagens!

Anonymous said...

Tudo bem?
Meu nome é Juliana Resende e sou estudante do 7º período de jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte. Estou fazendo o meu projeto experimental e pretendo pesquisar sobre como a educação e a utilização das novas ferramentas tecnológicas de informação contribuem para a produção e democratização da comunicação. Ainda estou um pouco perdida sobre a bibliografia que devo ler, assim como, sobre o meu problema de pesquisa.
Tenho um projeto, ainda em construção, que é o de levar a educação digital nas comunidades que tem menos contato com a tecnologia, mas já estão estruturadas para tal, para a produção de um jornalismo cidadão na Internet, através da construção de um blog, no qual a própria comunidade gera o conteúdo.
A universidade está avaliando a possibilidade de eu trabalhar com a metodologia de pesquisa-ação, mas ainda não está nada certo.

Bom, acho que é isso, se você puder me ajudar e me dar umas dicas será muito útil para a minha pesquisa.

Obrigada.
Abs,
Juliana Resende
jusresende@hotmail.com