Monday, May 05, 2008

BRICOPHONE: INFRA COMUNITÁRIA PARA CELULAR OPEN SOURCE



Publiquei este artigo na coluna raitéqui da Revista A Rede de 18 de Abril de 2008:

Projeto prevê solução de código e hardware abertos, baixo custo e pequeno consumo de energia.
Sérgio Amadeu da Silveira


Há alguns dias atrás, enquanto escrevia no Twitter, recebi um recado do Felipe Fonseca, um dos pioneiros da metarreciclagem no Brasil. Ele me chamava para participar do projeto Bricophone. Felipe momentaneamente está morando na Europa. Segui o link deixado por ele e acabei estudando o projeto. Para minha grata surpresa, descobri que Paulo Hartman, um dos organizadores do Mobilefest é também um dos disseminadores do projeto no Brasil. O projeto Bricophone é uma ação nômade, libertária, baseada nas vastas possibilidades do digital. Nesta coluna, resolvi traduzir as principais partes do projeto e incluir alguns comentários. Sem dúvida, o projeto traz uma grande idéia.

Mas o que é o Bricophone? É um projeto de código e hardware abertos, pensado para um pequeno consumo de energia e baixo custo, voltado para comunidades inferiores a mil pessoas, em regiões distantes. A grande idéia do Bricophone é que ele não necessita de uma infra-estrutura estática, como relés (relays), antenas e centrais de dados. Sua particularidade permite um uso especial de equipamentos de comunicação em áreas pobres, bem como para realizar resgates em áreas afetadas por desastres, e também para o uso em atividades sociais e culturais, como festivais e eventos de massa. Como se trata de um projeto open source, o Bricophone pretende ser construído pelos usuários ou por artesões digitais.

Onde surgiu a idéia? Como ela foi sendo conceitualmente construída? O projeto começou em Paris, no início de 2007, no Centre de Ressources Art Sensitif. A idéia original veio da denúncia e do chamado dos índios da Amazônia que lutam contra os mineradores de ouro, dos professores que protestavam em Oaxaca, dos agricultores que combatiam as minas de cobre no Peru, da organização dos protestos contra o G8 e a OMC, e da necessidade de agir nas diferentes recentes catástrofes naturais, como furacões em áreas tropicais, grandes apagões de energia nos Estados Unidos, terremotos, tsunamis no Oceano Índico, além de em muitas outras zonas em que os direitos humanos e a liberdade de expresssão não são respeitados.

No documento que detalha o projeto, os seus idealizadores avisam que o projeto Bricophone não é uma alternativa para a infra-estrutura regular de celulares, nem um telefone celular open source para carros e redes telemóveis, enfim, não se trata de um Linux-phone project. O Bricophone não é outro projeto de webfone ou celular via IP. É uma técnica, uma política economicamente independente de telefonia móvel, a partir do atual sistema de telefones celulares. A idéia é tentar abrir todas as possibilidades técnicas e éticas de garantia da liberdade de expressão.

Características

O objetivo da infra-estrutura Bricophone é somente a comunicação de voz. Funciona com as novas tecnologias de rede de sensores sem-fio, utilizadas na indústria de equipamentos. As principais características dessas novas tecnologias são as redes Mesh, serem de baixo custo e com consumo de energia extremamente baixo. Estas três características técnicas são a chave das potencialidades do projeto:

• Rede Mesh (ou malha, em português) segue um desenho em que cada ponto pode rotear (encontrar a rota e enviar) informações diretamente para qualquer outro ponto da mesma rede de conexão. O encaminhamento das informações é feito automaticamente, como na internet, através da escolha do melhor caminho entre os dispositivos conectados na rede. Desse modo, uma pequena quantidade de bricophones, não muito distantes uns dos outros, podem automaticamente construir uma rede operacional. Quanto mais bricophones entrarem na área de conexão, mais extensa ficará a rede.

• O Baixo Custo dos chips wireless viabiliza o projeto. Ele permite a conexão de diferentes equipamentos e dispositivos, pontos de acesso, roteadores de sinais e o próprio aparelho bricophone, garantindo as chamadas via internet. O baixo custo aliado à relativa simplicidade do hardware permite que as comunidades de usuários inventem novas possibilidades de uso, tal como se pode observar no projeto Arduino (hardware com sensor e processador que permite criar interfaces artísticas).

• O Baixo Consumo de energia permite a utilização da energia solar, eólica ou energia muscular (dínamo de bicicleta), ou baterias mais ambientalmente amigáveis. Os roteadores de baixo consumo de energia podem ser abastecidos em cima das árvores e de prédios com placas de energia solar ou baterias que podem durar muitos meses.


Evolução

Os primeiros trabalhos técnicos e consultas ocorreram durante 2007, através da rede Bricolabs (www.bricolabs.net). Rob Von Kranenburg realizou vários contatos com desenvolvedores de alta qualidade. Logo aderiram ao projeto: Philippe Langlois, artista do site xlrmx.org, engenheiro de rede e artista; Denis Jaromil, artista do Dyne.org envolvido com a possibilidade de aplicar técnicas Netsukuku no Bricophone; Rama Cosentino, artista de Giss.tv, Hackitectura.net e riereta.net; Cyrille Henry, artista envolvido no Pure Data Community (open source para artistas) e outras personalidades do mundo da cibercultura e da tecno-arte. A coordenação global é dirigida por Jean-Noël Montagné, artista do artsens.org.

Alguns workshops já foram realizados, inclusive em São Paulo, durante o Mobilefest, em novembro de 2007. Como muitos projetos de software aberto e livre, o futuro do Bricophone depende da ação da comunidade e da adesão de hackers, artistas, educadores, estudantes, curiosos, amantes da liberdade e do conhecimento. O projeto continua a crescer, e os próximos passos precisam de apoio, principalmente para:
• desenvolver um website multilíngüe, substituindo o primeiro www.bricophone.org;
• instalar ferramentas de comunicação para a comunidade, como wiki, código repositório, fórum, mailing list;
• realizar workshops de prototipagem em hardware, software e ferramentas, com as comunidades espalhadas em Paris, São Paulo, Bruxelas, Amsterdã, Sheffield, Barcelona, e em todas as cidades em que ativistas e militantes da liberdade de expressão e de conhecimento queiram participar do projeto.

4 comments:

Cabelo said...

Cara. A idéia é fantastica, mas a vabilidate técnica dela? O grande desafio é fazer a energia render num aparelho que vai estar roteando o sinal nos seus momentos de ociosidade... ou incluir um mini reator nuclear ou alguma forma de energia que não deixe na mão o usuario...

Isto me lembra bastante também as redes AD-HOC entre notebooks (eu as uso para jogar, pois a latencia parece ser menor do que usando um router)

Relsi said...

Bem interessante isso, já tinha lido uma pequena nota a respeito, mas sem a referência de onde era o projeto, vou dar uma olhada no site para saber mais.

Pelo que eu entendi, me corrija se eu estiver errado, há a possibilidade de agrupamentos de células e transformar isso em uma rede capaz de interligar cidades, etc.

No Brasil que tem uma legislação bem "nojentinha" em relação as telecomunicações, como isso seria visto?

Roberta Bellotti said...

Olá,
Parabéns pelo blog...
Gostaria de deixar uma dica, para todos aqueles que passam o dia inteiro conectados na Internet, de como para ganhar dinheiro com disso.
Quando me conecto, utilizo o discador da Inteligweb, onde posso ganhar até R$ 0,45 por hora, além de ter uma velocidade de internet banda larga, aí posso trocar por mercadorias em vários estabelecimentos, tipo no Pão de Açúcar, Extra, por assinaturas de revistas da Editora Abril, World Tennis, Chilli Beans etc.

Flávio E. N. Teixeira said...

Lendo esta materia deste projeto, que achei fantático, uma grande sacada, e a proposta sobre o desenvolvimento de um Website multilíngue, imediatamente me veio uma associação de idéas com o ESPERANTO.
Quem já ouviu falar do Esperanto?
Acho que tem tudo a ver com o Bricophone, fecha como uma luva.

Caso não conheçam o Esperanto, segue abaixo uma relação de alguns links, para os primeiros passos.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Esperanto
http://esperanto.org.br
http://fiszuk.sites.uol.com.br/index.htm
http://www.kke.org.br/pt/dossie/o_mundo_do_esperanto.php
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Um abraço, fraterno e solidário!

Flávio Eduardo N. Teixeira
Eng° Eletr/Computadores
Cel.: (51) 8205-5463
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