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Tuesday, December 11, 2007

TELECENTROS DE SP: DEBATE MOSTRA SUPERIORIDADE DO SOFTWARE LIVRE...


O Movimento Nossa São Paulo promoveu, ONTEM, dia 10 de dezembro, um debate sobre o uso de Software Livre nos Telecentros de São Paulo. Em outubro, a Prefeitura Municipal e a Microsoft assinaram um protocolo de intenções. O protocolo mais parece uma peça de marketing para o monopólio mundial de software divulgar que conseguirá retirar o GNU/Linux dos telecentros.

O debate foi coordenado por Odilon Guedes e contou com a participação de Waldemar Junqueira Ferreira Neto, Coordenador Geral de Inclusão Digital da Prefeitura, e eu que fui responsável pela implantação do software livre nos Telecentros de São Paulo.

Waldemar Ferreira disse que não iria colocar windows nos telecentros. Falou que pensava colocar uma máquina com dual boot para poder utilizar um software proprietário para deficientes visuais. Disse que era democrático dar mais de uma opção aos usuários.

Alertei que a micro$oft sempre tentou retirar o software livre dos telecentros de São Paulo que atendem mais de 400 mil pessoas na periferia da maior cidade do país. Os telecentros funcionam desde 2001 com GNU/Linux, OpenOffice e Gnome, entre outros softwares livres. É a maior rede municipal de inclusão digital da América Latina. Quando estava implantando o software livre na rede, o monopólio disse que não iria funcionar, que as pessoas perderiam oportunidades de emprego e outras afirmações intimidatórias. Nada disso aconteceu. Várias vezes enquanto a rede windows da prefeitura caia, a rede dos telecentros continuava funcionando. Mais estável, mais barata, mais segura. Depois de sete anos, os telecentros mostram a força do software livre. Sensacional.

Falei para o Waldemar que esta história do windows garantir empregabilidade é papo furado. Hj em SP existem milhares de usuários avançados de micro$oft que estão desempregadas. Empregos existem para quem sabe tecnologias abertas, PHP, Java, Python, Perl, adminstração de redes Linux. Os empregos estão no mundo das tecnologias estáveis porque as empresas estão caminhando para as soluções abertas e livres. Outra coisa: muitos jovens talentosos da periferia, aprenderam a mexer e remexer no GNU/Linux e outros softwares livres porque tiveram acesso ao seu código-fonte aberto. Hojhe estão muito bem empregados. Sofware livre ajuda a desenvolver pesoas autonomas.

Entre outras coisas, disse ao Waldemar que era um absurdo falar em fazer um centro de reciclagem e recondicionamento de computadores com a micro$oft. Onde já se viu colocar o Windows Vista para rodar em máquinas recicladas! Piada. O Vista não roda em máquinas de última geração. Ele precisa de mais de 2 Gbs. Bom, chegou uma hora, o Waldemar disse que o Vista não poderia jamais ser colocado para manter o esquema que montei na Prefeitura (um servidor e 20 máquinas sem HD), pois teria que comprar vinte estações muito caras.

Um programador da platéia foi ao microfone e perguntou: "alguém aqui tem dúvida sobre a superioridade técnica do software livre nos telecentros em relação ao windows?" Os técnicos da prefeitura que lá estavam e o próprio Waldemar disseram de pronto que NÃO.

Ah! Quando comecei a falar disse que colocar dual boot além de não ser democrático era desnecessário, instável e visava apenas pagar licenças para a micro$oft. Deixei bem claro que quem garante democracia em SP é a rede GNU/Linux dos telecentros. Ela dá opções aos cidadãos. Mostrei que o "papinho da livre escolha" que a micro$oft divulga é uma falácia. Onde existe monopólio não há liberdade de escolha. O poder púbico usando GNU/Linux começa a quebrar este processo monopolizador e de aprisionamento dos usuários.

Uma confissão: na verdade eu uso dual boot... uso GNU/Linux e FreeBSD.

Sunday, October 21, 2007

TELECENTROS DE SÃO PAULO: RETROCESSO À VISTA... mas o Vista é caro e não funciona direito!

A micro$oft sempre tentou impedir que se formasse uma grande rede em software livre. Fizemos isto, a partir de 2001, implantando os telecentros da Prefeitura de São Paulo. Os funcionários do monopólio diziam para os seus aliados dentro da máquina que os telecentros não iriam funcionar sem o windows. Pois é. Cada telecentro funcionou com um servidor Linux interligando vinte máquinas sem HD, com um custo menor. Funcionou e muito bem. Os telecentros de São Paulo chegaram a atender mais de 500 mil pessoas. Quando Serra entrou na Prefeitura, exitiam 126 telecentros. Enquanto vírus fulminavam e tiravam a rede da Prodam da Internet, os telecentros nunca tiveram problemas com isto. O Linux não aceita arquivos auto-executáveis, por isso não existe vírus para ele nem para Free BSD, outro sistema operacional livre. Depois de 2005, mesmo sem a mesma manutenção, a rede Linux nos telecentros funcionava e muito bem. Então, para que retroceder e voltar ao monopólio da micro$soft? Prá que voltar a pagar pelas licenças de software proprietário?

Quanto a Prefeitura irá gastar com o acordo com a micro$soft? Um milhão? Um milhão não dava para desenvolver as aplicações voltadas aos portadores de deficiência que rodassem em todos os servidores de telecentros?

Será que em um futuro próximo, a atual gestão pensa em substituir os hardwares dos telecentros, estáveis e baratos? É evidente que será necessário renovar os computadores. Mas, será que a atual gestão pretende deixar de usar os thin-clients, retirar o sistema de um servidor e computadores baratos como clientes? Bom, para usar o sistema operacional VISTA da micro$oft, eles terão que gastar muito em hardwares, mais ainda em anti-vírus, muito mais em manutenção, pois não terão que manter apenas um servidor com HD em cada telecentro. O VISTA não serve para um esquema thin-client.

Será que o Tribunal de Contas não se importa com o retrocesso?

É óbvio que o VISTA é pesado e está dando mil problemas para quem aderiu. Tudo indica que a micro$oft irá avançar em vários órgãos públicos, para que eles adquiram licenças do VISTA e promovam uma renovação induzida de máquinas (mesmo sem necessidade). Esse ritmo de obsolescência programada é bem conhecido neste mercado. Os governos são vitais para a micro$oft enfiar seus produtos no mercado. Governos são grandes compradores. Mas o gestor público deve avaliar se o custo dos estragos dos vírus, do tempo da queda da rede windows, sua instabilidade, somado a licenças absurdas diantes de opções, gratuítas, estáveis e seguras, compensam. Por que compensariam?

Além disso, o módulo 3D que eu utilizo no meu Linux Ubuntu funciona com 512 de memória RAM. O Vista não faz o mesmo com menos de 1 Giga. Assim, não dá prá entender a economicidade e o que motiva este retrocesso...

Tuesday, May 29, 2007

O debate sobre a exclusão digital

Flávio Gonçalves é jornalista, integrante do Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação
Social e membro da coordenação regional do Projeto Casa Brasil. Ele escreveu o artigo abaixo para deixar claro que a inclusão digital deveria ser uma política pública. O mercado não irá incluir as pessoas no mundo digital. O mercado gera exclusões múltiplas, ele integra milhões de pessoas como excluídos permanentes dos benefícios da riqueza produzida. O mercado capitalista, até hoje, não conseguiu nem ao menos alfabetizar todos os brasileiros.

Encontrei Flávio, em Vitória, na semana passada. Participamos do Seminário Internacional A Constituição do Comum: Comunicação e Cultura na Cidade. Pedi que ele me eviasse o seu artigo para publicar aqui. Aí está.


Telecentros: o local certo da inclusão digital

Flavio Goncalves
flasg@ig.com.br

Recentes afirmações a respeito da inclusão digital no país valorizaram o
papel desempenhado pelos locais de acesso pago, conhecidos como lan
houses. Para os que defendem a inclusão digital como um processo amplo e
democrático de apropriação tecnológica, que garanta aos cidadãos o
direito à comunicação e a sua intervenção crítica e autônoma na esfera
pública infomidiática para um necessário processo de transformação do
status quo, os espaços públicos de acesso, chamados telecentros, são a
única opção.


A universalização dos direitos do cidadão, como a saúde e a educação,
exigem políticas públicas que invistam recursos em estruturas gratuitas
de acesso. Não se supõe a universalização dos direitos como oriundos
exclusivamente de estruturas privadas. Ao contrário, as entidades
defensoras desses direitos afirmam que os planos de saúde e as escolas
privadas não são capazes de garanti-la, já que reproduzem e trabalham
dentro da excludente lógica do mercado-consumidor.


A inclusão digital é um processo de apropriação das novas ferramentas
tecnológicas de informação e comunicação, de forma a permitir a
autonomia para pessoas historicamente excluídas dos seus direitos. O
telecentro é local de acesso ao conhecimento, cultura, educação,
formação, entretenimento, compressão crítica da realidade e produção de
comunicação comunitária. A gestão valoriza a democracia participativa
deste espaço, que é público, incentivando a participação direta dos
cidadãos enquanto agentes políticos. Portanto, o telecentro é um local
de busca, valorização e promoção da democracia e da cidadania.


Por isso não é possível a comparação entre um telecentro e uma lan
house. São espaços conceitualmente diferentes quanto aos seus objetivos
e práticas. Muito menos é possível afirmar, como recentemente o fizeram,
que "são as lan houses que estão, de fato, fazendo a inclusão digital
neste país". Pode-se afirmar que esses espaços estão oferecendo acesso
ao computador e a Internet para uma parcela da população, mas com um
viés muito restrito diante das possibilidades da tecnologia e com uma
limitação também de público, nesse caso chamado de "consumidor". Não há
nenhuma perspectiva crítica, libertadora ou transformadora no interior
de uma lan house. Pelo contrário, ali se reproduz, na sua essência, a
relação excludente e individualista do "usa quem pode pagar".


Um telecentro precisa ter um projeto político-pedagógico. É através de
um processo de construção coletiva que serão definidas atividades, como
oficinas de jornalismo comunitário, software livre, direito à
comunicação, governo eletrônico, radioweb, pedagogia de Paulo Freire,
economia solidária, entre outras que ao longo do tempo são realizadas
com o objetivo de apresentar o potencial transformador da tecnologia e
sua relação com o nosso cotidiano, respeitando e dialogando com a
realidade e com as características de cada comunidade.


Diversos projetos dos poderes públicos já foram implementados em todo
Brasil e outros estão em andamento. Há um longo e complexo debate acerca
de todos os assuntos no que diz respeito a implementação, manutenção,
infra-estrutura, conexão, gestão, recursos humanos, capacitação e
financiamento de telecentros públicos. Deve-se, com base nessas
experiências, realizar um amplo debate que reúna os atores estatais
envolvidos, garantida a participação de entidades da sociedade,
avaliando essas iniciativas para assim pactuarmos os parâmetros e
práticas de uma política pública de inclusão digital para o país.


Dados do IBGE e do Comitê Gestor da Internet no Brasil (2006) indicam
números importantes sobre os locais onde a população brasileira tem
acesso a rede. Segundo a pesquisa, apenas 33,3% da população já
acessaram, ao menos uma vez, a Internet. Desse total, 40,4% acessam da
própria casa e outros 16,1% da casa de um amigo/familiar; 24,4% do local
de trabalho; a escola é o local de acesso para 15,5%. Os locais de
acesso pago (lan house) são a opção para 30,1% e centrais públicas de
acesso (telecentro) para 3,5%.


A maior parte da população brasileira não possui renda suficiente para a
aquisição de computadores (apesar do relativo sucesso do importante
programa federal de incentivo) e para o alto custo de uma conexão banda
larga (média de R$ 70,00 mensais); temos, portanto, uma limitação
estrutural que é relevante do ponto de vista quantitativo. O mesmo
ocorre com a limitação do público que pode acessar através de uma lan
house. Para um cidadão que pretende ficar em média 2 horas por dia
conectado, o que não é muito para a média nacional dos já incluídos, ao
final de um mês ele terá que desembolsar cerca de R$ 60,00. Isso
equivale a 15% de um salário mínimo, atualmente em R$ 380,00.


Aproximadamente 10% da população economicamente ativa brasileira está
desempregada e 2 em cada 3 dos (das) trabalhadores (as) empregados
recebem até 2 salários mínimos. Por isso, as lan houses apresentam uma
enorme limitação para, de fato, universalizar o chamado acesso simples.
E mais: só existirão lan houses onde é possível haver retorno financeiro
e onde há conexão banda larga disponível. Um grande complexo
habitacional miserável, habitado por milhares de pessoas de baixa renda,
receberá o número de lan houses compatível com o mercado consumidor em
potencial do local. Portanto, independentemente de existirem 50 mil
pessoas, o número de lan houses possíveis será definida a partir de um
cálculo matemático que ao final garanta a rentabilidade de um
investimento e não a garantia de um direito.


Não há campanhas contra as lan houses organizadas por aqueles que
desejam manter a estrutura social excludente da sociedade brasileira. O
que pode haver é a tradicional disputa de mercado entre empresas ou
microempresas na disputa pelo lucro. Dentro desse contexto estão
inseridas as lan houses. É preciso compreender que, como em qualquer
outra área da economia capitalista, existem disputas de mercado, onde os
maiores ou mais poderosos buscam a concentração do setor. Cabe a cada
empresário optar pela forma de inserir-se nessa disputa, sabidamente
desigual e concentradora.


O que está na ordem do dia no país é a necessidade de uma política
pública para a área da inclusão digital que dê conta de interligar as
ações e iniciativas de governo em andamento, sejam elas federais,
estaduais e municipais e, fundamentalmente, ampliar os investimentos
para aumentar sensivelmente a escala dos projetos públicos de inclusão
digital. Essa política pública precisa ter como objetivos um plano
nacional de universalização de banda larga, a capacitação contínua, o
incentivo à comunicação comunitária, a existência dos telecentros como
centrais públicas de comunicação, tendo em vista o potencial da
convergência tecnológica, a formação de redes para a colaboração das
produções potencializando a sua circulação e um processo contínuo de
avaliação. Os R$ 6 bilhões do Fundo Nacional de Universalização dos
Serviços de Telecomunicações (FUST) podem viabilizar essa política.


A participação da sociedade nesse processo é central. A amplitude de
possibilidades, as demandas e a realidade de cada comunidade precisam
ter espaço de diálogo nos processos de elaboração, implementação,
fiscalização e avaliação da política pública nacional de inclusão
digital. Para tanto, em nível federal, estadual e municipal, é preciso
que sejam instituídas estruturas que tenham essas atribuições e que
permitam ampla participação da sociedade. Não há política pública sem a
participação democrática da população.


Não se pode aceitar o argumento de que "é caro o custo de manutenção dos
telecentros". Trata-se de retorno social e o termo correto nesse caso é
investimento público para garantia de um direito. Ao longo das últimas
décadas, os ideais neoliberais de "estado mínimo" foram implementados e
como conseqüência temos uma população desassistida em relação ao
conjunto de seus direitos sociais. O investimento em telecentros gera
empregos, contribui com a distribuição de renda nas comunidades de baixa
renda e por isso movimenta a economia local. Além disso, busca-se
legitimar a idéia de que é exclusiva da iniciativa privada a capacidade
de "investir certo, onde há retorno". Trata-se de uma visão
exclusivamente mercadológica.

Aqueles que defendem as lan houses como espaço da inclusão digital
começam agora a solicitarem linhas de financiamento público para a
abertura destes espaços, supostamente na periferia das cidades. Trata-se
de, ao invés de investimentos em estruturas públicas, a antiga prática
do financiamento privado através dos recursos públicos. Considera-se que
a inclusão digital deve ser vista como uma atividade de empreendedorismo
privado.


A adoção pelo software livre, utilizado em grande parte dos telecentros
do país, é também uma opção política e, portanto, não é uma questão de
não se realizar "pirataria". As lan houses começam a se preocupar com o
fato de utilizarem cópias não autorizadas de software proprietário
temendo as multas cabíveis. Cogitam a utilização do software livre não
como prática de construção livre e colaborativa do conhecimento, mas sim
como uma forma de sobreviverem e não serem criminalizadas, conforme
prevêem as injustas leis atuais de direito autoral.


O telecentro não é espaço de tutelação. É local para aprendizado
coletivo, criatividade, valorização da diversidade e da cidadania.
Apenas uma política pública é capaz de universalizar direitos. Cabe à

sociedade organizar-se para exigir dos governantes a efetivação, de
forma democrática, da inclusão digital. As lan houses serão apenas um
apêndice limitado desse processo necessariamente universalizante e
transformador.