Monday, July 28, 2008

NUVENS DIGITAIS DE CONEXÃO SEM FIO


Publiquei na Revista A Rede, o artigo abaixo sobre as possibilidades de obter nuvens digitais de conexão Wi-Fi nos Municípios brasileiros.


NUVENS DIGITAIS DE CONEXÃO SEM FIO
16 de Junho de 2008

A disputa pelas prefeituras é uma oportunidade para que os candidatos se comprometam a criar redes sem-fio de acesso gratuito à internet. Sérgio Amadeu da Silveira

Há um fenômeno se alastrando pelo Brasil. Um número crescente de municípios brasileiros está utilizando as ondas de rádio para criar sobre seu território uma grande nuvem de conexão aberta à internet. Nessas cidades, seus moradores podem acessar gratuitamente as redes de informação, em banda larga. Antenas de rádio operando freqüências não-regulamentadas são instaladas para oferecer um tipo de conexão sem-fio chamada Wi-Fi.

Em geral, o Wi-Fi é muito usado em cafés, bares, aeroportos para conectar computadores, laptops e palms a um roteador que transmite o sinal a uma pequena distância, no máximo a 100 metros. Esses locais que oferecem o sinal de conexão sem-fio são chamados de hotspots. A novidade é que várias cidades estão usando grandes antenas que asseguram uma ampla cobertura para transmitir o sinal de rádio seguindo o padrão Wi-Fi (802.11b, a ou g). Assim, todos podem se conectar estando em casa, na rua, na praça; enfim, todos estão debaixo da mesma nuvem de conexão.

Isso permite reduzir muito o custo do uso da rede para a educação, para as atividades de saúde pública, para as comunidades e grupos culturais portarem seus conteúdos para a internet, para o surgimento de rádios e TVs comunitárias. Mas também garante que, com a disseminação de celulares que fazem chamadas pelo Skype, possamos fazer a comunicação móvel sobre IP, sem custo de ligação. Com toda a cidade sob a mesma nuvem de conexão, é possível que todos os telefones utilizem voz sobre IP para chamadas locais. Várias empresas de aparelhos celulares já oferecem modelos que operam pela internet a partir da conexão Wi-Fi.

Como este é um ano de eleições municipais no Brasil, há uma grande chance de os ativistas culturais e da inclusão digital obterem dos candidatos a prefeito o compromisso com a implantação de nuvens de conexão aberta à internet em cada cidade. É possível filmar a declaração dos candidatos e postá-la no Youtube. Quanto mais candidatos se comprometerem a aderir à conexão aberta e gratuita, mais será incentivada a adesão de outros candidatos e municípios. As chances são muito boas, mas não podemos perder a oportunidade.

Para ajudar no convencimento dos políticos de seu município, vamos divulgar exemplos de cidades digitais que possuem nuvens abertas de conexão. Antes, devemos relembrar que o fenômeno das cidades digitais teve grande impulso depois que Piraí (RJ), usando vários tipos de tecnologia, tornou-se a primeira cidade completamente conectada em banda larga no país. Uma das principais questões certamente será a comparação das vantagens sociais, culturais e econômicas da conexão aberta diante do custo para a prefeitura. Assim, vamos avaliar a experiência de quatro cidades diferentes.

Pedregulho é um pequeno município do estado de São Paulo, com 15 mil habitantes e cerca de 321 mil quilômetros quadrados. Wagner Nascimento, especialista em redes wireless, hardware e desenvolvimento de sistema baseado em software livre, idealizou o Projeto Cidadão Internet, que contou com o apoio imediato do prefeito. Como diretor do departamento de informática da Prefeitura Municipal de Pedregulho, Wagner implantou sete antenas, que cobriram toda a área urbana e 60% do campo. O custo mensal do projeto é de R$ 3.472,00, pagos pela prefeitura para obter o link de 4 Mbps da Telefônica. A conexão é gratuita para todos os cidadãos de Pedregulho.

Além disso, todos os prédios públicos estão conectados e há 50 terminais de acesso gratuito à população. O telecentro municipal funciona com Linux, Firefox e OpenOffice. O site da prefeitura possui tutoriais e explicações sobre como usar a internet wireless, além de detalhar a tecnologia utilizada. Vale a pena conferir: http://www.pedregulho.sp.gov.br/news.php. No documento sobre a filosofia do projeto, disponível no site e assinado por Wagner Nascimento e Helio Rodrigues Ribeiro, podemos ler que “as facilidades proporcionadas pelo Projeto Cidadão Internet, não só por promoverem a inclusão digital-social de fato, mas também por utilizar softwares livres e gratuitos, têm levado dezenas de prefeituras de todo o país a contatarem a prefeitura de Pedregulho para buscar experiências no sentido de adotarem o mesmo sistema”.

Outro exemplo é a cidade de Tapira (MG), a 400 quilômetros de Belo Horizonte. Com 3,6 mil habitantes, Tapira possui seus mais de 1,1 mil quilômetros quadrados cobertos por uma grande nuvem Wi-Fi, via rádio de 2,4 GHz, desde 2005, quando a prefeitura inaugurou um provedor municipal de internet banda larga. O acesso é gratuito para todos os moradores.

Segundo a prefeitura, antes de iniciar o projeto, existiam cerca de 50 computadores na cidade que poderiam navegar na rede. Atualmente, a prefeitura estima que 40% da população use a internet em aproximadamente 300 residências, de um total de 700 casas existentes na área urbana. É um dos maiores índices de inclusão digital do país. Segundo os organizadores do projeto, a prefeitura de Tapira gasta R$ 7,9 mil por mês com a conexão e manutenção da rede Wi-Fi, além dos R$ 5 mil desembolsados na instalação. Todo o valor é pago pelo município, sem fontes externas de financiamento.

Um dos casos mais conhecidos de internet gratuita para todos os munícipes é o de Sud Mennuci (SP), a 613 quilômetros da capital. Com 591 quilômetros quadrados e 8 mil habitantes, Sud Mennuci montou sua rede wireless em 2003, com um investimento inicial de R$ 18 mil. Hoje, a prefeitura paga à operadora de telefonia R$ 5,8 mil mensais por dois links de internet. Antes de abrir o sinal no município, apenas 30 casas tinham acesso à internet via conexão discada. Hoje, Sud Mennuci conta com 840 pontos de acesso.

Quissamã, uma pequena cidade no norte do estado do Rio de Janeiro, implementa também o acesso sem-fio gratuito para os seus moradores. O projeto denominado Internet Cidadão está detalhado no site do município: http://www.quissama.rj.gov.br/content.asp?cc=46&id=1040. O projeto realiza a conexão através de ondas de rádio, disseminadas por repetidoras em pontos estratégicos. É necessário que as antenas nas casas consigam enxergar uma das torres de transmissão. Segundo a prefeitura, a qualidade e a velocidade de conexão são bem melhores que na conexão via linha telefônica com um modem de 56k.

Existem vários outros exemplos que podem ser encontrados no Guia das Cidades Digitais : www.guiadascidadesdigitais.com.br/index.php. O importante é não perder a oportunidade de cobrar dos candidatos à prefeitura e à vaga de vereador o compromisso de formar uma nuvem digital de conexão aberta à internet. Ela reduz os custos da comunicação, incentiva as práticas de aprendizagem em rede e pode ampliar a inteligência coletiva das nossas comunidades.

10 comments:

Anonymous said...

Por favor, vc como pessoa mais atuaçizada, poderia me explicar uma coisa?
1º não será mais possivel usar o Emule agora com a lei do Zeredo?
2ºE baixar discos antigos ripados de blogs como toque muiscal ou loronix, será considerado crime?
3 º Os provedoresa relamete serão delatores?

Anonymous said...

Muito obrigada desde já pelas suas respostas!

...Ximenes... said...

Muito boa idéia Sergio!
E inspirado pelo Campus Party espanhol, pensei que poderíamos ter no proximo Campus Party Brasil, redes wireless espalhadas pela cidade, e por que não pensar em várias cidades, durante todo o evento, e não apenas no ibirapuera (se for acontecer la novamente). O que pode servir como propaganda para o evento e para a idéia de redes sem fio para a cidade. Enfim, podemos discutir melhor sobre isso, mas esta dada a idéia!

samadeu said...

Respondendo as perguntas feitas por um internauta anônimo no primeiro comentário deste post:

PERGUNTA 1º: não será mais possivel usar o Emule agora com a lei do Zeredo?

RESPOSTA: Primeiro, a proposta do azeredo ainda não é lei. Podemos tentar suprimir dela os artigos 285-A e 285-B que abririam espaço para criminalizar o compartilhamento de arquivos cerceados pelo copyright.
Segundo, o projeto de Lei do Azeredo ao dizer que violar dispositivos de segurança e transferir na rede informações sem a devida aqutorização será considerado crime, permitirá ações contra todas as redes P2P.

PERGUNTA 2º E baixar discos antigos ripados de blogs como toque muiscal ou loronix, será considerado crime?

RESPOSTA: Se no blog tiver uma música que foi obtida a partir do acesso a uma rede ou dispositivo de comunicação "protegido por expressa restrição de acesso" (o projeto não expica o que é isto), sem autorização do seu titular (leia-se dono), ao transferir esta música o internauta poderá estar violando o artigo 285-B. O interessante é notar que a proposta do Azeredo, tenta coibir o compartilhamento de arquivos digitais não mais pela lei do copyright, mas pela VIOLAÇÃO DE SEGURANÇA DE REDES, DISPOSITIVOS E SISTEMAS PROTEGIDOS.

PERGUNTA 3 º Os provedoresa relamete serão delatores?

RESPOSTA: Depende de como seus gerentes irão se comportar diante da lei. O problema é que os provedores deveriam abrir dados e logs de seus usuários somente a partir de ordem judicial. O Assessor do Azeredo diz que continuará sendo assim. Bom, a pergunta que fica é: "Então para que serve este artigo 23?
Outro grave problema é quando uma lei não é clara como esta. Ela se pretará a aplicações arbitrárias.
Por exemplo, se a MPAA-Latin America denunciar a um provedor que os fluxos de BitTorrent de seus usuários contém pacotes de informações de vídeos obtidos mediante violação de "restrições de acesso a dispositivos de sua propriedade", o que o provedor fará? Desconsiderará a denúncia ou terá que "informar, de maneira sigilosa, à autoridade competente, denúncia que tenha recebido e que contenha indícios da prática de crime sujeito a acionamento penal público incondicionado" (CONFORME O ARTIGO 22 DA PROPOSTA DO AZEREDO) ????

NÃO PODEMOS CONCORDAR com uma proposta de Lei que é dúbia e permite atacar o USO JUSTO DE OBRAS CULTURAIS, O COMPARTILHAMENTO EM REDES P2P e que INCENTIVA A VIOLAÇÃO DA PRIVACIDADE dos cidadãos.

João sérgio said...

Já viu a entrevista com o azeredo? ele insiste na tese de que a jurisprudência resolverá os problemas da lei.

Link da entrevista http://blogdojoaosergio.wordpress.com/2008/07/29/entrevista-com-eduardo-azeredo/

samadeu said...

João, é exatamente isto que queremos evitar. Não é possível concordar com uma lei que não seja clara e que permita que a jurisprudência faça com a Internet o mesmo que o TSE (Justiça Eleitoral) está fazendo com a campanha na rede.
Não é nada útil para a liberdade de expressão, para a criatividade e para a privacidade aprovar uma lei arbitrária.
Não é necessário. Além disso, é extremamente perigoso.

Anonymous said...

Ainda no assunto, tenho a boa mania de baixar discos (vinil) ripado da net nã9o vem cvia Bittorrent mas sim via rapidshare, mediafire, tbm será problema?
Será q terão cotasm, para baixar, numero de dwnloads por dia essas coisa^?
Obrigado desde já

herdeirodocaos said...

Ótimo post, Sérgio. Estava pesquisando experiências de "nuvens digitais" no Brasil para levantar o debate que haverá sobre cidadania e novas mídias durante a I Conferência de Comunicação da Bahia, a ser realizada em agosto.

[margarida] said...

Maravilhoso o artigo sobre cidades digitais. Estou iniciando um projeto de doutorado sobre isso... então, antes de qualquer coisa, quero agradecer!!

Li no Twitter sobre o debate "new TV mobile" no Portal IG, mas não tenho a menor idéia de como faço pra assistir. Mas até as 15h eu descubro :)

Obrigada de novo!
Bjs!

Fabiano Carnevale said...

Oi Sérgio, excelente artigo. O Gabeira tem a proposta de conectar o Rio como uma das idéias-forças do seu programa de governo (que ainda está sendo elaborado). Coordeno o grupo de trabalho que está tratando desse tema e gostaria de contar com a sua ajuda. É um grande desafio conectar uma cidade como o Rio de Janeiro e estamos apostando em soluções híbridas, que possam utilizar a estrutura das escolas municipais. se possível, me envie um e-mail (fabiano@gabeira.com.br) para que eu possa te mandar o texto-base do grupo e que estamos aprofundando com técnicos, pesquisadores e empresários. abraços, Fabiano Carnevale.